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:: Teses Jurídicas |
Diferentes
regionalizações da Europa
Até onde vai a Europa ? Quais são os países
que compõem o continente europeu ? Quais são
os critérios que permitem dividir o seu
território em regiões ? Sob o ponto de vista
tradicional da geografia, a Europa nada mais
é do que uma extensa península do continente
asiático. A oeste, norte e sul, não pairam
dúvidas quanto aos limites do continente, já
que as águas do Atlântico, através do mar do
Norte, do Báltico e do Mediterrâneo separam
claramente as terras européias dos outros
continentes.
O problema se coloca a leste, onde não
existe um mar ou oceano separando as terras
"européias" das "asiáticas". Por isso,
tradicionalmente, os geógrafos consideram
que os limites entre a Europa e a Ásia são
formados pelos montes Urais, conjunto
montanhoso que nunca se constituiu num
obstáculo intransponível, em função das suas
modestas altitudes. Além disso, ao norte do
mar Cáspio passa-se, de forma quase
imperceptível, das imensas planícies do
leste da Europa para a planície Siberiana,
que se estende pelo oeste da Ásia.
Durante muito tempo, a Europa foi
considerada um conjunto geográfico sem
significação política. Era a sua diversidade
de paisagens naturais que balizava as
propostas de regionalização. Com base nos
dados da natureza, dividia-se o continente,
dos pontos de vista climático (regiões de
clima mediterrâneo, temperado oceânico,
temperado continental e subpolar),
morfológico (domínio de planícies e escudos
antigos do centro-norte, em contraposição ao
domínio de cadeias montanhosas de formação
terciária do centro-sul) ou hidrográfico
(Europa "danubiana", Europa "renana", etc.).
No entanto, o conceito de Europa sempre
esteve impregnado de história, fato
comprovado pelas grandes mudanças ocorridas
nas fronteiras dos Estados ao longo do
tempo. Essas mudanças geopolíticas jamais
mantiveram relações significativas com os
quadros naturais.
Durante a Guerra Fria, foi a partir de uma
concepção geopolítica que se passou a
dividir o continente em Europa Ocidental (os
países capitalistas aliados dos Estados
Unidos) e Oriental (os países socialistas
subordinados à União Soviética). Esse modelo
de regionalização entrou em colapso com a
queda do Muro de Berlim e a dissolução da
União Soviética, em 1989-91.
Ainda durante a Guerra Fria, um outro
problema se colocava: onde incluir a URSS ?
Houve uma certa tendência a se considerar a
superpotência como algo distinto da Europa,
usando-se como pretexto o fato de que cerca
de 70% das terras soviéticas localizavam-se
na Ásia, isto é, a leste dos Urais. Em
contrapartida, atualmente tornou-se comum
incluir toda a Rússia no continente europeu,
sob o argumento que, tanto na orla do
Pacífico quanto na Sibéria, a maioria da
população é eslava e, portanto, de raízes
européias. Entre os próprios russos não há
consenso sobre uma identidade "européia",
"asiática" ou "euro-asiática".
A noção de uma Europa que se estenderia do
Atlântico ao Pacífico ganhou alento quando,
no final dos anos 80, Gorbatchev propôs a
criação da "Casa Comum Européia", ampliação
da idéia da Europa "do Atlântico aos Urais",
na formulação do ex-presidente francês
Charles De Gaulle, nos anos 60. A expansão
da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(OTAN) para os países da antiga Cortina de
Ferro e a provável incorporação de Estados
dessa região à União Européia configuram a
renúncia à "Casa Comum Européia" e adicionam
novos complicadores à questão da
regionalização do continente.
As dificuldades para se delimitar e
regionalizar a Europa afetaram até o
futebol. Durante a Guerra Fria, a seleção de
futebol da antiga União Soviética sempre
participou do grupo europeu, tanto em
eliminatórias para a Copa do Mundo como em
torneios entre seleções nacionais. Com a
fragmentação da União Soviética em 15
repúblicas independentes, a regionalização
futebolística mudou. A Rússia, os Estados
Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), a
Belarus, a Ucrânia, a Moldova e os países do
Cáucaso (Geórgia, Armênia e Azerbaijão)
participam do grupo europeu. Por outro lado,
as cinco repúblicas da antiga Ásia Central
soviética (Casaquistão, Usbequistão,
Turcomenistão, Tajiquistão e Quirguistão)
participam do grupo asiático. É o futebol se
adaptando à geopolítica.
NELSON JOSÉ COMEGNIO
comegnio@uol.com.br
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